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Quem faz a Música? > Músicos e Letristas
Danny Al Varenga é guitarrista paulistano, professor, músico freelancer e arranjador. Nesta entrevista ele nos fala da sua atuação na Tama Blues Band e de seus conceitos sobre a Música.

1. Por que você escolheu a Música?
 
R. Eu, na verdade, costumo cometer a gafe de fazer uma brincadeira meio arriscada que diz que: "eu não escolhi a música, ela quem me escolheu". É uma brincadeira que soa um pouco pretensiosa demais da minha parte, mas que tem um fundo de verdade. Pois, quando eu era garoto bem pequeno eu me recordo de ver meu avô tocando alguns instrumentos, então todo final de semana que eu ia na casa dele, quando escutava o barulho dele com algum instrumento, eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que tinha de sentar fazer silêncio e assistir. Aquilo de alguma forma me chamava a atenção, e eu morria de vontade de tocar instrumento de corda, (eu já tinha essa ideia fixa), por isso que falo que "ah... me escolheu", não por pretensão e sim por não saber exatamente explicar como me envolvi, talvez tenha sido há séculos ou vidas atrás (para os mais espiritualizados) ou eu tenho uma região do cérebro mais propensa à isso (para os mais céticos). No meio dessa história tem uma passagem "tragicômica". Um belo dia ele, meu avô resolveu me deu um cavaquinho na mão, eu tinha uns seis ou sete anos e lembro de ter ficado o dia todo tentando tocar e de ter voltado pra casa com os dedos todos calejados e cheio de bolhas (risos). E aí naquele dia pensei "Poxa... Acho que não sirvo pra isso". O interesse mesmo pra valer, e um pouco mais consciente, veio com 10 ou 12 anos quando vi meu primo tocando violão e depois guitarra, e quando tive um contato mais aprofundado com bandas de rock, desde então nunca mais parei e não me recordo de um dia sequer sem ouvir música ou estar envolvido com isso.

2. Quais foram os seus caminhos no estudo da Música?
 
R. Meus caminhos eles foram um pouco, curiosos para os músicos que estão começando hoje eu diria que arcaicos (risos). Eu tenho hoje 26 anos, eu costumo falar que "não sou nem tão experiente que tenha tirado músicas em vinis, e nem tão novo que já tenha aprendido a tirar música usando o Guitar Pro 6". Então eu tive lá uns 10 meses de aulas de violão pra aprender alguns acordes básicos no primeiro ano, e eu tentei absorver o máximo que o professor me passava eu olhava cada detalhe e trejeitos de todo cara que tocasse um pouco mais, nessa época eu não tinha vídeos no youtube ou um acesso tão fácil a internet. Eu tinha de correr atrás da informação, então quando eu cheguei a adolescência era natural eu ir procurar discos que eu não via nas lojas, em lojas de discos usados, pois eu sabia que la tinha muito do que eu queria, nesse período eu me recordo de ter estudado muito com algumas  vídeo aulas do Edu Ardanuy e do Kiko Loureiro, Algumas vídeo aulas importadas que eu copiava de algum amigo meu de caras como Eric Johnson, como Paul Gilbert e Steve Morse. E revistas de guitarra a rodo, eu na verdade coleciono esse tipo de coisa até hoje, porque sempre enxergo em tudo um grande potencial de estudo ou de diferença sonora, eu não me defino bem como guitarrista até hoje e sim como um pesquisador e garimpador de sons. Eu estou sempre à procura do acorde perfeito, o tempo perfeito do delay e o som perfeito, e isso é algo muito preciosista e maluco, meio como uma luta de Don Quixote contra os moinhos de vento, fica naquele loop eterno. (risos). Eu só vim estudar pra valer mesmo quando entrei pro IG&T aos 19 anos. Ali eu decidi de vez a ir de cabeça.

3. Conte-nos sobre a Tama Blues Band. Qual é a formação, quais são os músicos que participam? Há quanto tempo existe a banda e qual é a proposta musical?
 
R. Sobre a Tama Blues Band, bem foi algo meio assim de "estalo" A Tama tocava comigo em uma outra banda que é a Magazine 80, que é uma banda mais de bailes, eu ainda toco nela. Porém ela tinha esse projeto dela é um power trio e a proposta era fazer algumas coisas autorais, porém também rearranjar alguns clássicos já consagrados do rock para uma versão mais country e blue grass. Todos na banda tem essa veia meio "Roqueira " ou vem de uma escola de rock mais pesado. Então procuramos fazer o arranjo sem descaracterizar de mais, porém dando a nossa cara mais blues para o negócio. A banda hoje conta comigo, nas guitarras, a baixista e vocalista Tama Froglia cuidando dos vocais e baixo e do baterista Kique Rodrigues, que ajuda a Tama com a cozinha da banda. Tentamos fazer isso tudo soar bem em power trio, é uma loucura (risos). A banda é nova e surgiu mesmo quando eu fui convidado formalmente a integrar, pois eles por um acaso do destino não deram sorte em achar um guitarrista na mesma sintonia talvez.

4. Você compõe? Se sim, como acontece para você o processo de composição musical?
 
R. Eu tenho trabalhado muito isso, eu costumo encarar a composição como um estudo. E é curiosa essa pergunta, porque eu conheço muita gente nesse meio que tem os processos mais disparatados do mundo pra compor. Uns meditam, uns recorrem a algumas coisas extras, outros não recorrem simplesmente à nada. E eu costumo dizer que eu apenas estudo. Se no meio do meu estudo eu acho algo inusitado e interessante, eu me apodero daquilo e desenvolvo com a minha marca. É algo bem "do it yourself". Agora tem outra forma que eu uso bem, às vezes eu escuto algo na minha mente, rola isso bastante, e eu tento passar primeiro pro papel, pra depois desenvolver, ou seja as ideias partem da minha cabeça e eu tento assimilar elas e passar pros dedos, isso é um processo que demora, dias, meses anos, as vezes eu fico parado naquela ideia, às vezes ela vem como um "brainstorm" nos horários mais perturbadores possíveis e imagináveis. Então eu tento salvar todo tipo de ideia desde gravando no celular, desde recorrendo a minha memória musical, que modéstia à parte, costuma ser bem fiel comigo. Então eu não tenho um processo, e no fundo eu acho que ninguém tem um processo. Eu defino a composição como "Um quadro branco a ser preenchido, onde eu escolho a cores, o que pintar, que estilo usar, que época atingir, que tipo de impressão passar, que sensação causar, e procurando tratar a regra de luz e sombra das escolas de arte; como a regra de dinâmica forte e fraca da música". Eu não estou dizendo que essa seja a verdade absoluta, nós estamos ainda falando de arte, não é uma ciência, tampouco exata. Então não dá pra ter uma visão muito cartesiana das coisas, porém é uma forma de trazer um pouco mais de lógica, e de explicar um pouco mais detalhado como funciona pra mim.

5. Como você vê a atual música brasileira?
 
R. Depende... Se for referente a grande mídia ou a cultura de massas, uma catástrofe pior que a bomba de Hiroshima, e isso sempre foi assim ao meu ver! (risos). Eu poderia inventar mil e uma teorias sobre isso ou criar uma história muito bonita e comovente a respeito disso, mas a realidade para mim é que atualmente no cenário nacional, qualquer coisa que exija demais do pensamento, para o brasileiro que vive no corre corre, tem sido penoso ou chato. O pessimismo assusta, mas eu confesso que não entendo bem a forma de arte que a massa consome e sempre consumiu. Hoje em dia, o quadro é caótico, porque as pessoas pegam coisas que teóricamente não podem ser consideradas música, e colocam como se fosse a oitava maravilha musical do mundo, talvez essa exposição por longos anos a coisas ruins, seja o provável suspeito pelo senso crítico descalibrado do brasileiro. E é correto também que o Brasil sempre teve uma estrutura meio diminuta nesse ponto. Sendo mais dramático e falando por mim, eu confesso que sinto um pouco de calafrios quando vou em alguma festa e alguém resolve me aparecer com algum disco (em raros casos), escrito “hit do verão 2016", eu fico me perguntando "à qual tipo de tortura chinesa serei exposto esta vez", é bem bizarro. (mais risos). Agora,  se for com relação ao Underground brasileiro, a realidade é que está cheio de bandas boas, pagando pra poder tocar ou sobreviverem, eu só nesse ano, vi uma das maiores bandas do Brasil encerrar as atividades porque não compensa trabalhar no Brasil. Vi muito cara bom tentando a sorte nas terras do Tio Sam ou no velho mundo. Temos uma cultura riquíssima e, ao mesmo tempo quando não banalizada, esquecida de canto. Temos muita gente boa escondida, se garimpar ou ficar por uma semana na cena de qualquer cidade pequena, é possível achar grandes bandas, grandes músicos, só que todos trabalhando e sufocando seu sonho meio período dentro de um banco ou de um emprego público pra pagar as contas. Então quando a pergunta for onde estão nossos Jimmy Hendrixis?  A resposta sempre será "Trabalhando fora, morando fora, tentando pagar as contas, por isso trabalhando no escritório. Não desmerecendo ninguém, são empregos louváveis, precisamos dessas pessoas também, porém que num grupo de 30 pessoas que trabalham em uma empresa que consigo achar pelo menos 11 que estão sufocando seu sonho, isso eu conheço aos montes.

6. O que poderia ser feito para que existisse um espaço maior para novas bandas?
 
R. Muita coisa!!! A começar que o ensino de música nas escolas deveria ser tão obrigatório quanto ao de qualquer outra coisa que tem, eu posso provar a qualquer pessoa que contribui pra evolução intelectual e psicomotora de uma criança é de grande valia, fora que faz as pessoas interagirem mais, fora que ajuda a apurar o senso crítico. Por que os maiores gênios da música no barroco, no classicismo, ou no romantismo, ou eram alemães ou eram italianos ou franceses ou europeus? Uma que o novo mundo era recém descoberto, outra que Mozart e Beethoven começavam a estudar desde pequenos. É assim até hoje nos EUA por exemplo, pergunte a qualquer grande guitarrista americano, ele dirá que estudou música no high school, ou teve aulas particulares de piano em casa. Quanto ao espaço pra bandas novas... bem pouca gente abre espaço na mídia pra isso. O sinônimo de sucesso ainda nesse meio continua sendo o bom e velho rádio. Nenhum produtor fala isso, mas pergunta quanto que a rádio não ganha, muito bem pra tocar a música de x ou y "artista"?  (isso pra não citar nomes). Ou seja,  muita gente leva nisso. Se tivesse uma lei que vetasse meios de comunicação de cobrar o famoso "Jabá", eles ficariam sem opção. Mas a culpa não é só disso, tem lei de incentivo à cultura usado de maneira errada, tem o lado dos próprios músicos que se fecham  numa redoma de segmentar o próprio trabalho à somente um nicho como se toda a massa não tivesse a mínima importância. Festivais mais honestos e bem pagos seria também um meio, a Secretaria de Cultura raramente fala nisso. Ou seja, nem a Secretaria da Cultura liga. Então é isso, rola essa "elitização" e também tem o lado do público que não tem nenhuma ferramenta, às vezes pra entender algo tão segmentado. Então quanto mais eventos com artistas locais, mais se apoiasse a cena, mais ganha o mundo, foi assim com qualquer coisa no século passado, tudo precisa de movimento. A cultura idem.

7. Qual seria a mensagem que você deixaria para os internautas da nossa web revista Fala Maestro?
 
R. Se você quer ser guitarrista, estude, como diriam os mestres, o "criador mora nos detalhes". Se você é apenas ouvinte e não praticante de nenhum instrumento, tire um tempo para apenas ouvir música no seu dia a dia, mas na hora de ouvir, tente apenas apreciar como se fosse um vinho caro! Isso já ajuda bem, apoie sua cena local, preste atenção quando for ver alguém tocar, isso ajuda. Eu gostaria de usar esse espaço aqui também pra agradecer ao Sergio pela entrevista, e deixar um grande abraço aos leitores da revista.


 


 
 
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