Emoção na hora de cantar? - www.falamaestro.com.br

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Fala, Maestro! > Parte 2
 
Usar a emoção na hora de cantar?

 
Meu pai, Sebastião Pinto ( www.sebastiaopinto.com.br ), um grande cantor da nossa música brasileira, tinha uma tese sobre utilizar a emoção no momento de interpretar uma música.
 
Ele citava uma frase muito comum em discursos quando uma pessoa se emocionava ao falar: “A emoção que me embarga a voz...”.
 
Quem discursava, pelo fato de ter se emocionado com o que falava, não conseguia falar naturalmente.
 
Ele citava esta frase em razão da sua tese que indicava que um cantor não deve se emocionar quando interpreta uma música, em razão de perder o controle sobre a sua voz.
 
Um ator, continuava Sebastião Pinto explicando, precisa “fazer de conta” que está vivendo um personagem. Não precisa “ser” o personagem.
 
E é a pura verdade. É claro que muitos irão defender exatamente o contrário, que um cantor pode e deve se emocionar enquanto interpreta uma música, podendo até chorar e perder a afinação e técnica, em favor da “emoção”.
 
Eu respeito esta teoria também, inclusive Ivete Sangalo fez este comentário no The Voice Kids, exibido pela Globo, em um dos dias de exibição do programa.
 
Porém, particularmente, eu continuo a achar que Sebastião Pinto estava certo quando afirmava que este não é o melhor caminho para a interpretação.
 
Quando um ator vive uma cena onde sofre um ataque cardíaco e acaba por “morrer” em cena, quem assiste o filme ou a novela, “se emociona” de verdade, correto?
 
Porém, o ator não precisa sofrer um “ataque cardíaco” para viver esta cena. Ele precisa ser convincente o suficiente para que todos nós “acreditemos” que aquilo está acontecendo.
 
Isto é arte. Isto é interpretação. Fazer de conta. Ter a capacidade de “passar” a mensagem, sem necessariamente, tê-la vivido.
 
Quando um cantor ou cantora deixa que a emoção tome conta da sua interpretação, provavelmente, sua voz não será a mesma, ele poderá semitonar, perder a respiração e o tempo certo.
 
Isto para mim não é arte. É emoção, mas não é arte.
 
Quando Elis Regina interpreta maravilhosamente “Atrás da porta”, de Francis Hime e Chico Buarque, e praticamente “chora” durante a interpretação, eu acredito piamente que ela “interpreta” o choro e não, simplesmente, “chora” de verdade.
 
A dor da personagem da música estava mais do que presente e podemos imaginar a cena ao ouvi-la cantar.
 
Isto para mim é arte. O contrário, é só emoção e qualquer um pode se emocionar com qualquer coisa que mexa com a sua sensibilidade.
 
Ao artista é dada a possibilidade de “fazer” o seu público se emocionar, se encantar, se envolver e disso ele não pode abrir mão.
 
Por isso, fica a sugestão para você que canta. Faça valer o que recebeu como dom. Não aceite a ideia de que a emoção pode tomar conta de você e “diminuir” a sua capacidade de ser o artista que é.
 
Faça as pessoas se emocionarem. Você terá o direito de se chamar “artista” verdadeiramente. Aquele que faz Arte.
 
E boa interpretação para você!

 
 
Maestro Sergio Valério
 
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