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Fala, Maestro! > Parte 1
 
Conversando com Elis Regina

 
Foram momentos inesquecíveis.
 
Ali estava ela. Elis Regina, conversando comigo e com Paulinho Camargo, meu amigo e também cantor e compositor.
 
O encontro, agendado por Roberto Menescal, na época diretor artístico da Polygram, aconteceu durante as gravações do novo disco de Elis.
 
O maestro Cesar Camargo Mariano realizava a gravação da música Romaria, de Renato Teixeira, nos Estúdios Reunidos, que ficava em um dos andares do famoso prédio da Avenida Paulista, 900.
 
Elis nos recebeu com muito carinho e atenção.
 
Éramos, eu e Paulinho, dois jovens compositores em busca de uma carreira e, é claro, adoraríamos se tivéssemos o prazer de ter a grande intérprete da nossa música brasileira cantando uma de nossas músicas.
 
Queríamos uma oportunidade de mostrar as nossas músicas, mas quando Elis começou a falar, comentando sobre tudo, inclusive sobre o momento político vivido na época, 1976, esquecemos da nossa intenção e ficamos apenas a ouvir Elis.
 
Elis não era maravilhosa só para cantar. Sua voz, falando, também era muito especial. Ela comentava a situação difícil do país que, em plena ditadura militar, limitava a arte em sua expressão mais livre, “tesourando” a arte dos nossos compositores brasileiros.
 
Alguns tiveram, inclusive, que sair do país para poder simplesmente, “respirar” em paz.
 
Durante a conversa, Elis se encantou com os óculos diferentes que Paulinho usava. Eram um óculos que se dobrava todo, transformando-se em um pequeno objeto.
 
Elis era assim. Ela adorava o novo. Ousou lançar tantos jovens compositores que se tornou, na época, uma verdadeira fonte de espaço para os novos compositores. Foi assim com Belchior, João Bosco, Aldir Blanc, Milton Nascimento, entre tantos outros maravilhosos na arte de compor.
 
Eu fiquei simplesmente hipnotizado por Elis ao ouvi-la falar de forma tão brilhante. A minha admiração pela grande cantora foi ampliada naquela conversa que durou cerca de 40 minutos.
 
Os acordes de Romaria que fizeram a “trilha musical” de nossa conversa soavam como se fossem mágicos. Nem o melhor diretor de cinema conseguiria “mixar” com tanta precisão as imagens e o áudio daqueles instantes.
 
Elis foi chamada para alguma atuação especial na gravação, talvez uma voz guia ou até a definitiva de Romaria que apaixonou o Brasil e foi aí que a nossa conversa foi encerrada.
 
Muito gentil, Elis Regina se despediu e lá fomos nós pelos corredores do 6º andar onde ficava o estúdio.
 
Paulinho Camargo seguiu o seu caminho e lá fui eu com o meu carro para o meu apartamento.
 
Era noite e a Avenida Paulista parecia muito especial. As luzes pareciam brilhar mais, porém nada havia mudado na iluminação. Era o brilho de Elis Regina que fazia com que tudo parecesse diferente.
 
Daquele dia em diante, minha vida com certeza, mudou. Meu conceito sobre a Música, sobre a vida foi alterado significativamente.
 
Tempos depois, tive a notícia que Elis poderia gravar uma de minhas músicas e que havia a possibilidade da composição se tornar tema de uma das próximas novelas da televisão brasileira.
 
Fiquei radiante! Seria o máximo Elis interpretar uma de minhas músicas.
 
Passado algum tempo, tomei conhecimento que a novela havia sido vetada pela censura e que, portanto, tudo havia sido cancelado.
 
Mas, nada mais importava. Conhecer Elis, ouvi-la falar, foi um dos melhores presentes que recebi em minha vida.
 
Afinal de contas, não é todo dia que uma luz tão intensa nos ilumina.


Maestro Sergio Valério
 
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